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  Celso Luis Piovesana  
Artigo: Clonando Édipo
(Drama atual para cinema e/ou teatro)

16/03/2010

 

Ele, médico, 42 anos, bem-apessoado, um profissional respeitado, com sua tese de doutorado recém-realizada, de grande valor pelo tema: “As epidemias e os movimentos culturais, caracterizando os movimentos sociais conturbados e geradores de violência com o aumento de epidemias pelas inevitáveis transformações e evoluções”. Veste-se de modo especial, mas não para a sua rotina de trabalho ou para as freqüentes reuniões e festas para as quais é convidado, mas para um encontro vivido não apenas como desonroso, mas como o mais odioso de sua vida.

Feliz esteve e poderia estar, com sua bela esposa de 36 anos e sua filha, de 17, que sempre o trataram com o maior respeito e admiração, pois nunca tiveram uma discussão mais séria ou estúpida, ou alguma atitude pela qual pudesse desaprová-las. Mas a razão desse encontro tinha transformado tudo em um grande desgosto, e o seu raciocínio já não se fazia nobre como sua profissão o tinha feito e, sim, o fizeram num amontoado de maus pensamentos. Sua vontade era pegar uma arma e matar aquele jovem de 22 anos, motivo desse encontro.

Pensava que talvez devesse usar alguma droga – conhecimento para isso ele tinha -, mas usar da medicina para matar era um absurdo para quem fez o juramento hipocrático, mas não matar era uma atitude inaceitável. Questionava-se: como um garoto pode violentar sua filha e a sua esposa?

O encontro com a mãe do rapaz, sobre a qual ele só conseguia exclamar: “Puta... essa filha-da-puta foi gerar esse filho-da-puta..., um elemento desse só merece a morte, ou melhor, não poderia ter nascido..., quantos partos fazemos com motivo de orgulho e satisfação, poderia até ter sido eu”, pensava, “e agora um filho-da-puta desses me apronta uma dessa, qual o mal que fiz para merecer isso? E o pai desse canalha, segundo consta, é um alcoólatra, uma outra besta que não serviu para nada, a não ser para fazer o mal.”

Misturava o repúdio aos pais do garoto com o repúdio à pobreza, já os condenando pela incapacidade de manter o controle das atitudes do garoto pela suposta falta de formação intelectual e falta de recursos econômicos.

Cada vez mais procurava os culpados e suas razões, e só não podemos dizer que era melhor que um bom médico a investigar a possível causa de uma doença, porque ali a força motivadora da investigação era o ódio. “Ah! Mas ela vai ver só”, pensava ele, como se ela pudesse dar-lhe algo que fosse servir para satisfazer seu desejo de vingança. “Um moleque de 22 anos, um filho-da-puta irresponsável, pensa que pode ir assim fodendo com qualquer uma sem se importar com nada; ah! Ele vai pagar caro”. Toda a sua nobreza e elegância externa se mantinham, apesar de sua mente estar mais violenta que a chamada periferia.

No caminho ainda ficava a lembrar o que sua esposa tinha contado: tudo tinha acontecido no dia de sua partida da casa da praia. Eles tinham feito amor pela manhã porque um beijo de despedida seria pouco, e ela tinha permanecido na cama por mais algumas horas e, quando se levantou, sua filha já tinha ido à praia e, embora não fosse do seu hábito beber, aquele dia aproximou-se de uma roda de samba, não só atraída pela música, mas também por um rapaz.

Tinha comentado com sua mãe no dia anterior sobre aquele rapaz, um moreno, alto, possivelmente um pouco mais alto que seu pai, com um corpo atlético, e sua mãe teria comentado que lembrava do seu pai com um corpo assim e do quanto ele cuidava por mantê-lo.

O rapaz destacava-se tanto na prancha de surfe quanto no futebol e no vôlei. Além do mais, achavam-no com um semblante enigmático, um certo encanto. Ele exercia uma liderança no grupo e na da roda de samba, parecendo que todos os sorrisos eram para ele. Soube-se depois que ele comandava um esquema de tráfico de drogas e que ele usava, também do dinheiro das drogas para se fazer o querido do pedaço.

Ele, nessa atitude sedutora, aproximou-se, pois, encantado com aquela jovem bonita, com uma mãe bonita, em uma casa bonita... Para um bom observador como era, já as tinha notado no dia anterior, e isto, é lógico, era algo sedutor e desafiador para um conquistador. Ele na sua lógica: nada mais certo do que fazê-la beber uma caipirinha com uma droga (êxtase), e, como ninguém se recusava a aceitar algo dele, ela, no seu constrangimento social, bebericou enquanto dançavam e cantavam. Sem dúvida, após algum tempo ela começou a sentir os efeitos e, por não ser do seu hábito, não ficou apenas alegre, mas começou a passar mal. Ele prontamente se dispôs a cuidar dela e a levá-la à sua casa, sem qualquer oposição do grupo. Colocou-a no seu BMW e resolveu rodar um tempo; foi para lugares afastados para não ter problemas, mas ela, num misto de confusão mental e de excitação, começou a se masturbar sem crítica da situação, e ele, excitado com aquela situação, abusou dela. Depois, entendendo que seria encrenca na certa, resolveu levá-la para sua casa antes que ela se recompusesse. Assim fez e contou à sua mãe que ela tinha bebido um pouco e estava passando mal e então ele a estava trazendo para os seus cuidados. A mãe, na sua inocência, acreditando que era apenas isso, mostrou-se toda agradecida a ele pela gentileza e, vendo-os sujos de areia, falou que iria dar um banho nela. Ofereceu o banheiro social para que ele também se banhasse, dizendo que gostaria de conversar com ele após cuidar da sua filha, e deu-lhe uma toalha e um short do marido. Após o banho, a garota adormeceu, e então a mãe foi estar com o rapaz.

Ele, pouco acostumado com conversas familiares, conselhos e orientações, começou a se incomodar com aquele papo de que não se deve beber. “Então ele, ofendido na sua vaidade, disse não ser bem assim que cada um tem que saber curtir a seu modo e que ela era muito careta, que ele conhecia muitas madames que curtiam drogas, principalmente maconha, e sexo diferente do papai-e-mamãe e que ela também gostaria de ter, mas ficava fazendo tipo. Ela, ofendida, tentou na impulsividade dar-lhe um tapa no rosto e ele, ofendido, na tentativa de agressão, conteve-a fisicamente e, para tentar provar que estava certo, partiu para o beijo e para forçar para que ela reconhecesse sua razão. Nessa luta prevaleceu sua força  e, diante das agressões dele, para não acontecer algo pior a ela e também temendo pela filha, dominada, aceita a relação. Ele, como já era esperado, fugiu, pois o fugir, o escapar, sempre representa um ato esperto, de malandro, envaidecedor. E portou-se naturalmente, certo de que ela iria preferir a omissão dos fatos para não comprometer sua vaidade. Mas, após a queixa-denúncia na polícia, não foi difícil sua detenção.

O encontro do médico com a mãe do estuprador foi uma proposta da polícia para que as partes envolvidas, ao se conhecerem , pudessem melhor trabalhar mentalmente o ocorrido e, contribuíssem para um melhor desenrolar do processo. Ele muito a contragosto, estava comparecendo muito mais em função de não poder passar a idéia de ser um preconceituoso. Questionava-se: “O que tenho a conversar com essa mulher? Ter pena dela, por se envergonhar do filho que tem? Teria eu, ainda, de ajudar? Ter alguma clemência? Eu quero mais é que eles se fodam!..., mas vamos nos portar como civilizados”, concluía.

Já na sala de espera se encontram, mas se mantém distantes. Ela, uma mulher de cor, não muito escura, aparentava mais de 40 anos, mas tinha 39, peso acima do normal, quase obesa, com dentição comprometida parcialmente, o que lhe tirava a beleza do sorriso que, por incrível que pareça, era sutil, mas ela o portava. E, ao vê-lo, não conseguiu esconder um brilho maior nos olhos e no sorriso.

Ele, mais carrancudo, questionava-se como ela poderia achar naquele encontro algum motivo para alegria e, constrangido, entendia que ser carrancudo, inevitavelmente, o faria mais grosseiro que ela e que ficaria feio para ele, pois se entendia como alguém muito mais civilizado do que ela para se portar de tal forma.

Ela, ao ser inquirida, esclareceu que seu filho não era do seu marido, que ela tinha se casado após o nascimento do seu filho, e que ele tinha sido fruto de uma paixão não correspondida da sua juventude. Ela tinha se encantado por um estudante universitário e isto a levou, naquela época, a passar com freqüência em frente à sua república, e ele, em conjunto com seus colegas, entendeu-a como uma biscate e que ela estaria a fim de uma “trepada”. Que seria apenas uma vadia. E a chamaram para conversar. Ela, encantada, não recusou a oportunidade de conversar com ele, aceitando as brincadeiras e as “cantadas”. Entendendo que teria uma oportunidade única, não quis desperdiçar e falou que aquele dia ficaria com apenas um, e que ela iria escolher o rapaz do dia. Eles aceitaram, até mesmo porque ninguém poderia recusar e ser chamado de “frouxo”. Ela, porém, tinha ficado com sua paixão e nunca mais voltou para ficar com os outros. Referiu que ele foi a sua primeira relação sexual, que escondeu sua dor e contou ser um final de menstruação aquele sangramento. Quando soube da gravidez, ficou feliz, mas sabia que teria uma barra pesada a enfrentar e então se preparou.

Após dois meses, contou à família, mas só teve a compreensão da mãe, e prevaleceu a resolução do pai, que a expulsou de casa. Nos primeiros meses, trabalhou sem problema, mas, após o parto, tudo se tornou mais difícil, e ela acabou aceitando casar-se com um rapaz que era apaixonado por ela. Embora o tratasse com respeito e algum carinho, ele sabia que ela não o amava, e isto o fazia triste, pela depressão, cada vez mais se perdeu na bebida, e agora ela cuidava dele como uma retribuição pelo tempo em que ele cuidara dela.

Carinho, mesmo, ela tinha pelo filho e tudo fez por ele. Ela se enchia de orgulho ao falar dele, que tinha sido um bom garoto, que sempre ia bem na escola, que sempre se destacou e liderou seu grupo de amizades, que sempre se mostrava mais hábil que os demais, e que a única coisa que o prejudicou foram as drogas e o tráfico do seu bairro; que inevitavelmente ele tinha entrado naquela roda para não ser massacrado pelos traficantes, mas até lá dentro do tráfico ele soube ser esperto; que embora usando drogas, nunca se deixou ser dominado por elas, pois sempre quis ser o dominador. “E eu sempre o fiz entender que Ele não podia se deixar levar por elas. E vocês sabem como são os jovens, querem de tudo, e ele descobriu como se beneficiar delas. Eu também não gosto, mas ele é muito inteligente, e não se consegue mais argumentar com ele”.

“Ele é um bom menino”, dizia. E acrescentava que ele só tinha uma mágoa, e esse era o único motivo pelo qual brigava com ela: não sabe quem era seu verdadeiro pai. Escondia isso dele, por entender que o pai jamais o aceitaria, o que seria pior para ele. Temia que ele ficasse mais revoltado e começasse a fazer besteiras.

O médico, ao ser questionado se queria fazer alguma pergunta a ela sobre ela e o filho, ficou um tanto quanto desconcertado e assustado e lhe perguntou em que cidade isso tinha ocorrido. E ela perguntou: “Qual ocorrido, o da gravidez?” E ele confirmou apenas com a cabeça. E ela respondeu, deixando-o mais atordoado ainda, pois era a cidade em que tinha cursado medicina. Ele se fez entender que se dava por satisfeito, mas sua cabeça não conseguia ter sossego, remoia suas memórias, tentando evitar o reconhecimento de quantas vezes tinha saído com meninas de rua e que aquela mulher eventualmente poderia ser uma delas. Pensava: talvez o filho fosse de algum colega; seria mais cômodo? Olhava para o rosto da mulher, tentando lembrar, mas a situação lhe era mais familiar que aquele rosto, mesmo tentando imaginá-la 23 anos mais nova.

Ele, quanto questionado por ela se estava bem e se estava feliz com a família antes do incidente, só conseguiu dizer que sim, embora em segundos tivesse passado pela sua cabeça que sua frustração, até aquele momento, era não ter tido um filho, pois, após o nascimento da filha, tinha tido uma virose, parotidite, que lhe causou uma orquite e, em decorrência dela, ficou com uma oligoespermia. Era muito feliz com a filha e esposa, mas também bastante vaidoso para desejar um filho. Já tinha pensado em inseminação e, quando questionado sobre clones, tinha sérias dificuldades em separar suas concepções éticas dos seus desejos de se clonar para ter uma filho.

Para sua sorte, ninguém ousou questioná-lo, a não ser ele, se estava de acordo com a nova lei que obrigava a identificação do pai, que isso era um direito da criança e que a mãe tinha de contar quem foi esse estudante, essa sua paixão.

Foi mencionado que esse pai poderia e deveria ajudar na recuperação e até nas custas processuais do caso, que ele tinha responsabilidade sobre este filho, mesmo não sendo do seu conhecimento até o presente, que o rapaz teria o direito de ter um pai para ajudá-lo nessa hora de dificuldades. Sem poder dizer outra coisa, respondeu que estava de acordo com o esclarecimento da paternidade, imaginando o quanto seria doloroso a esse pai receber um filho nessas condições, e o quanto ele já se martirizava, reconhecendo-se como o pai.

A mãe, pressionada a revelar, ameaçada pelos policiais de não estar cumprindo a lei, propões revelar no outro dia e solicitou uma conversa particular com o queixoso do crime de estupro. Ele, questionado se aceitava as condições dela, respondeu que sim. Foi orientado a não aceitar nenhum tipo de chantagem. Já no caminho do pátio, para terem a conversa particular, ele não agüentou e, só no olhar e na expressão de seu sofrimento, ela lhe confirmou num simples acenar de cabeça.

No pátio, ele só conseguiu questioná-la sobre o porquê de não o ter procurado para contar da gravidez, que eles poderiam ter discutido sobre ela. Mas, antes que ele continuasse, ela já disse: “Você iria querer o aborto, e eu não abriria mão do meu filho por nada. Você poderia querer tomá-lo de mim por ter recursos e jamais você iria querer me assumir como mãe do seu filho e sua esposa. Para você eu era apenas uma putinha”. O silêncio foi o reconhecimento inevitável.

Consequências do ponto de vista do médico

Ter de se dar por feliz por descobrir que tem um filho homem , um jovem saudável e que, dentro das condições de vida que teve, foi bem-sucedido. Se antes não pôde decidir pelo aborto, agora a vida desse filho dependia de ele mover um processo-crime ou não.

O filho da esposa, sendo homem, será praticamente 100% de carga genética sua e com boas possibilidades de ser seu mesmo, e não do seu filho. É o filho bastardo contribuindo para a realização do seu sonho e ter de ser agradecido a ele.

O neto, nascendo saudável, teria 50% de chances de ser seu clone.

Deu-se conta de que um ato leviano e inconseqüente seu, produziu um filho que, também num ato leviano e inconseqüente, trouxe a possibilidade da realização de seus sonhos ligados à sua vaidade.

Dr. Celso Luís Piovesana é psiquiatra.