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Científico - 05/05/2004


    O Grupo de Medicina Fetal da Unicamp, criado em 1993, ficou conhecido nacionalmente pelo sucesso da cirurgia intra-útero realizada em dezembro do ano passado, no menino Lucas, filho de Kelly Cristina Conceição. Nesta reportagem, o MedicAção traz informações sobre o trabalho deste grupo da Unicamp e as indicações para uma cirurgia deste porte.
    O Grupo de Medicina Fetal é composto por uma equipe multidisciplinar, que atende casos de má formação fetal que são encaminhados para a Unicamp. Lucas, que nasceu no dia 1º de março deste ano, é portador de mielomeningocele, um defeito congênito que impede o fechamento da coluna vertebral e causa hidrocefalia (acúmulo de água no cérebro).
    A cirurgia realizada pela equipe foi amplamente divulgada em todo o país, inclusive porque o tempo de gestação foi recorde, chegando a 35ª semana, pois, em geral, as gestantes submetidas a cirurgia fetal aberta apresentam trabalho de parto prematuro e, em média, chegam a 32 semanas.
    Apesar de ainda não ser possível avaliar se o menino terá alguma seqüela no cérebro, a cirurgia tornou remota a possibilidade dele apresentar algum retardo mental devido à hidrocefalia (controlada pela cirurgia), segundo o neurocirurgião Helder Zambelli, membro do Grupo de Medicina Fetal da Unicamp. Ele adianta que o garoto poderá apresentar algum problema motor nas pernas, mas muito menor que se ele não tivesse passado pela cirurgia ainda no útero.
    O responsável pelo Grupo é o Dr. Ricardo Barini, que trabalha com uma equipe de profissionais de várias áreas, como especialistas em cirurgia pediátrica, neurocirurgia, neonatologia, ultra-sonografia, genética, anestesia, além de psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiras e assistentes sociais. Entre os membros da equipe estão os médicos Helder Zambelli, Lourenço Sbragia, Sérgio Marba, Maria Otília e Kleber de Andrade.
    A primeira cirurgia fetal realizada pelo grupo ocorreu em dezembro de 2002. Tratava-se de um feto portador de mielomeningocele, onde infortunadamente houve deslocamento de placenta e o feto não resistiu. No dia 11 de dezembro do ano passado (2003), foi realizada a segunda cirurgia, também por conta de uma mielomeningocele. A criança nasceu no dia 1º de março deste ano, com um grande ganho do ponto de vista neurológico e manteve-se estável do ponto de vista da hidrocefalia, desde o momento da correção fetal.
    Zambelli explica que quando uma criança sofre desta má formação (mielomeningocele), em 80% dos casos ela fica com hidrocefalia e a cirurgia intra-útero aumenta a possibilidade da criança nascer sem esta doença ou com um menor nível, o que reduz a ocorrência de retardo mental.
    O Departamento de Medicina Fetal da Unicamp tem capacidade para fazer de quatro a cinco cirurgias de mielo intra-útero anuais. As indicações de cirurgia são muito precisas, pois nem todas as gestantes podem ser operadas. “Em geral, operam-se entre 12 e 15 neonatos com a doença ao ano. Destas, apenas quatro ou cinco teriam indicações para correção intra-útero (apenas as de baixo nível torácico T1)”, explica o cirurgião pediátrico Lourenço Sbragia.
    É preciso ainda, de acordo com ele, que o feto esteja entre a 19ª e 25ª semana de gestação. “Nem antes, nem depois”. O caso recente foi operado com 23 semanas e nasceu com 35 semanas. Trata-se do caso em que a gestação conseguiu seguir por mais tempo, na América do Sul.
    A equipe da Unicamp informa que no caso de um médico possuir uma paciente que se enquadre na cirurgia, ele poderá encaminhá-la para este grupo, que é o centro de referência para esta doença na cidade. O telefone para contato é o 3788-9331.
    Zambelli explica que estas cirurgias não são pagas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sendo, portanto, cobertas em parte como outro tipo de cirurgia, sendo o restante pago pela universidade. A cirurgia tem custo entre R$ 25 e R$ 30 mil.
    A chance de sucesso da cirurgia intra-útero para mielomeningocele é de 50% e sua indicação serve para reduzir a hidrocefalia, evitando que a criança tenha que usar válvula após o nascimento, procedimento que costuma provocar muitas infecções, como a Meningite, que vão deteriorando o estado mental da criança.
    A escolha dos casos a serem operados na Unicamp segue o critério americano, que tem o respaldo do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH - National Institute of Health) que preconiza que a lesão deve ser corrigida intra-útero entre as vértebras T12 e L5. Para estar apta para a cirurgia é preciso que o feto tenha apenas este defeito isolado, sem alterações cromossômicas, a mãe esteja bem de saúde, sem nenhum problema materno e, do ponto de vista psicológico, é importante que ela esteja bem informada.
    “Os médicos interessados em encaminhar suas pacientes para a equipe da Unicamp precisam estar atentos ao tempo de gestação, que deve ser menor que 24 semanas”, lembra o neurocirurgião.
    Sbragia explica ainda que dois outros defeitos podem ser operados intra-útero, especialmente quando o feto desenvolve hidropsia. Neste caso, a não intervenção cirúrgica fetal leva inevitavelmente ao óbito. Teratoma Sacro Coccígeo – um tumor embrionário (maligno ou benigno) que sai do cóccix, e a malformação Adenomatóide Cística Congênita – um caso em que o pulmão do feto começa a formar cistos, como esponjas, que comprimem o coração são as duas precisas indicações.
    Para melhorar o atendimento de crianças com defeitos congênitos, há um pedido junto ao Ministério da Saúde, para a implantação de um projeto para o Centro de Atendimento Integral a Saúde da Mulher (CAISM), com custo de R$ 1,5 milhão, parado há dois anos.
    Tal projeto inclui a criação de leitos específicos para a cirurgia neonatal e fetal, separados do atendimento neonatal clínico comum. O projeto prevê ainda a implantação de uma ala específica para o atendimento de todos os casos pré-natais com a criação de dez novos leitos para a rede pública, amparando, desta forma, o público de crianças com defeitos congênitos na região de Campinas.
    Para Sbragia, é preciso que a classe médica e a população de Campinas e região procurem sensibilizar os dirigentes governamentais da área de saúde e os políticos da Região Metropolitana de Campinas, no sentido de ajudar a promover a qualidade de atendimento médico altamente especializado aos pacientes do SUS. Com a ajuda governamental será possível realizar um maior número de procedimentos e cirurgias fetais e neonatais.
    O Ministério da Saúde foi procurado para falar sobre o assunto, mas não respondeu a solicitação.





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